Apercebo-me com frequência que é raro viver o presente; viver mesmo, usufruir, desfrutar o momento presente, quase sempre divago entre projectos e sonhos que gostaria de concretizar num futuro mais ou menos próximo ou perco-me em recordações do passado.
O presente depressa passa a passado como sabemos, o tempo passa demasiado depressa na ânsia que chegue a hora de ir para a cama dormir, ou que chegue mais um fim de semana ou as férias ... concentramo-nos estúpidamente no futuro, imediato ou longínquo; não nos empenhamos a 100% no trabalho e volta e meia olhamos para o relógio para ver se o dia está a chegar ao fim para regressarmos a casa; uma vez chegados a casa passa-se a " swifer" para tirar o cotão que se vai acumulando, prepara-se o jantar, arruma-se a cozinha ( deteeeeeesto arrumar a cozinha depois do jantar ), deitam-se os filhos e ... é isto ... mas é isto o quê ?
É ter uma bébé linda e saudável nos braços que se aconchega ao meu corpo que me olha nos olhos que me puxa os fios de cabelo com as suas mãozinhas e que aos poucos vai adormecendo; é ter outra filha com o brilho de todas as estrelas nos olhos que me devolve um sorriso desdentado e me pede festinhas nas costas enquanto vemos um pouco de televisão; é partilhar silêncios cúmplices com o marido; é ter saúde, é ter uma família unida que se ama verdadeiramente, é ter uma casa confortável, é ter um emprego ... e é queixarmo-nos de barriga cheia; em vez de estar grata pelo que tenho suspiro pelo que poderia ter ou fazer; a vida a maior parte das vezes é cheia de rotinas monótonas e repetitivas, mas acho que as coisas são mesmo assim ... e quando não são, ou é porque teria uma vida tipo Gonçalo Cadilhe a palmilhar esse mundo ( mas concerteza ele também deve ter momentos de tédio, em que suspira talvez com um bébé para embalar nos braços e um sorriso desdentado a quem dar as boas noites )ou então essas rotinas são abruptamente interrompidas por motivos de doença ou desemprego ...
Acho que somos mesmo um bicho complicado que nunca estamos satisfeitos.